Vale Glaciar do Zêzere

Para lá do frio. Planaltos e migalhas e a glaciação da Estrela

Publicado em Posted in Artigos, Geografia

40º20´N 7º 35´W. 28 mil anos Antes de Cristo. Um campo de gelo com cerca de 100 metros de espessura cobre o planalto. Com uma drenagem lenta para os vales, o gelo move-se polindo e arrancando pedaços de rocha granítica que podem chegar à dimensão de uma pequena moradia.

Gonçalo Vieira
Centro de Estudos Geográficos
Instituto de Geografia e Ordenamento do Território, Universidade de Lisboa
Fotografia: Ricardo Costa

 

Ao ser canalizado nos vales, o gelo acelera, bem como a erosão. Ao precipitar-se nos circos, que estabelecem o contato entre os vales e o planalto, formam-se fendas profundas facilitadoras da drenagem das águas para a base do glaciar. A erosão aumenta e as cabeceiras dos vales vão-se alargando lentamente, dando origem a profundas formas em anfiteatro, quase completamente colmatadas por gelo. Aqui e ali, escassas elevações de rocha sobressaem acima do glaciar. Em algumas partes dos vales, há mais de 300 metros de espessura de gelo, que se vai deslocando para jusante, dezenas de metros por ano, arrastando toda a rocha arrancada. A ação da gravidade e o declive fazem com que o gelo se deforme lentamente e flua. Na base do glaciar, onde o gelo assenta no vale, uma mistura de pedras, areias e partículas ainda mais finas, envoltas em gelo e frequentemente, saturada em água, funciona como almofada, sobre a qual desliza o glaciar. Essa almofada, de propriedades muito variáveis no espaço e tempo, ora tem mais gelo, ou mais água. No primeiro caso, a base do glaciar funciona como uma lixa de enorme potência; no segundo, ajuda a lubrificar o interface gelo-rocha, contribuindo para que o glaciar acelere o seu movimento e flua, escorregando sobre o vale.

À medida que o gelo desce nos vales, as temperaturas médias do ar vão aumentando e as condições para a manutenção da neve que caíu na estação fria, vão desaparecendo. Enquanto no Verão, nas áreas altas, a neve do Inverno anterior não chega a fundir, nas partes mais baixas, esta não se vai aguentar. O glaciar começa a perder massa, desaparecendo a cerca de 750-800 metros de altitude. Próximo da margem glaciária, os vales estão juncados de sedimento. Acumulações de blocos, calhaus, areias e silte arrastadas pelos glaciar, como se este fosse um tapete rolante, depositam-se, formando moreias. Ao contrário das áreas altas, onde a rocha é erodida, aqui domina a acumulação. À frente do glaciar, os rios têm forte capacidade de transporte, em especial nos dias mais quentes de Verão. As moreias são mobilizadas, os blocos são rolados e, ao longo dos vales, formam-se acumulações de sedimentos grosseiros, estruturadas pelo fluxo das águas correntes.
As encostas, acima dos glaciares que escoam lentamente nos vales, têm um clima frio e húmido, com muita neve. Abundam processos de fraturação da rocha devido à congelação e fusão. Desabamentos, escoadas de detritos e enxurradas contribuem para o fornecimento de mais detritos aos glaciares. Estes, transportam-nos, como se de migalhas se tratassem.

Glaciar

Figura 1 – Glaciar

Nos últimos 100 mil anos, o frio modelou a paisagem da serra da Estrela durante, talvez, 70 a 80% do tempo. É muito tempo! Só mesmo nos últimos cerca de 10 a 15 mil anos é que as condições climáticas se tornaram mais próximas das atuais (embora nem sempre). Os glaciares fundiram, mas a paisagem ainda não recuperou. As marcas glaciárias da Estrela são impressionantes e um verdadeiro parque de diversões para os cientistas da Terra. Mas não é a dimensão dos vales glaciários, nem a raridade das formas encontradas que tornam a geomorfologia da Estrela tão especial, pois esta paisagem é muito frequente nas montanhas das latitudes altas e médias. É sim, a localização geográfica da Estrela no limite sudoeste da Europa, associada aos testemunhos glaciários, que a tornam particularmente interessante. A raridade da Estrela está no modo como surge uma paisagem glaciária tão diversa e com formas tão bem conservadas, no meio de um Portugal temperado e de cariz mediterrâneo. E a causa para isso (e a sorte de todos nós), foi haver um planalto acima de 1700 metros de altitude, capaz de manter a neve mesmo durante o Verão. Fosse a Estrela uma montanha de picos e cristas alpinas, e apenas se teriam desenvolvido pequenos glaciares circo e de vale e nunca teriamos sido brindados com um campo de gelo de 66 km2 (figura 1).
Viva o Planalto Superior!

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