Peru

Os documentários de história natural e o desenvolvimento

Publicado em Posted in Artigos, Fauna, Flora

Nos últimos anos a produção de documentários de história natural em território português tem dado passos importantes e tende a consolidar-se ao longo do tempo se continuar a existir uma produção constante.

Daniel Pinheiro
Documentarista de vida selvagem

Várias produções nacionais e internacionais foram realizadas tendo como alvo as nossas espécies e habitats, e existem já vários profissionais no país dedicados a esta área tanto em ambientes terrestres como aquáticos. É por isso uma boa oportunidade para que uma pequena industria se desenvolva nesta área, à semelhança do que acontece noutros países europeus, aproveitando também a grande evolução que se tem registado na fotografia de natureza em Portugal. Além dos profissionais das disciplinas técnicas ligadas ao som e imagem na produção e pós-produção dos filmes, estes trabalhos envolvem também, cientistas e especialistas de diversas áreas conferindo por vezes visibilidade às suas próprias pesquisas de campo, ao divulgarem factos e fenómenos por eles estudados e comprovados.

Estes documentos audiovisuais têm como primeira missão dar a conhecer e informar o público sobre a biodiversidade e geodiversidade existentes, num contexto cinematográfico, alertando igualmente para a sua conservação. Os documentários de vida selvagem constituem também uma das formas mais eficazes de comunicar ciência ou informar as audiências acerca de matérias, por vezes complexas, de uma forma acessível e visualmente atrativa, sendo por isso uma mais valia. Podem retratar, de forma genérica: fenómenos biológicos, geológicos e até mesmo antropológicos, introduzindo a relação do homem com o seu meio, com parte integrante dos ecossistemas quando assim se justifica.

A receptividade por parte do público a este tipo de documentários de produção nacional tem sido excelente, com audiências bastante boas em televisão. Durante muito tempo estivemos habituados a ver, quase exclusivamente, documentários de outros pontos do globo, fazendo crescer uma vontade em ter as nossas espécies e paisagens retratadas nos mesmos formatos. Existe portanto um mercado crescente para explorar onde as televisões nacionais tem uma importante missão a desempenhar. As plataformas digitais assumem também um papel cada vez mais relevante na divulgação deste suporte. Recentemente este género de produções começou também a ter o devido reconhecimento e aceitação em alguns festivais de cinema nacionais, obtendo vários prémios nas disciplinas documentais. Portugal tem um mosaico de paisagens e ecossistemas bastante variado sendo um dos países mais ricos em biodiversidade no contexto europeu. Aqui residem muitos endemismos Ibéricos, principalmente de flora, alguns dos quais são exclusivos do nosso País. Temos também uma grande variedade de vertebrados, principalmente de aves e anfíbios que o grande público desconhece. Já o ambiente marinho tem um potencial à escala global, sendo o Atlântico adjacente às ilhas da Madeira e Açores um hotspot mundial nesta matéria. Toda esta riqueza intrínseca do nosso país deve ser explorada, mostrada ao público e igualmente incluída num plano estratégico de divulgação de Portugal no exterior, mostrando regiões, paisagens e espécies que podem potenciar o turismo nas regiões abordadas, em particular um turismo ambiental sustentável. selvagem “Mondego”. A ideia de produzir um documentário de vida selvagem sobre a biodiversidade de um rio português surgiu como projecto final do meu mestrado em Produção de Documentários de Vida Selvagem realizado na Universidade de Salford, Reino Unido. Para este fim, a Universidade tinha parcerias em Cuba, Costa Rica, Serra Leoa e Reino Unido, entre outros, mas desde o início que tive como finalidade filmar em Portugal. Razões como: proximidade, logística, um possível retorno para projetos futuros no meu país e, o mais importante, o potencial da biodiversidade e paisagens, não me ofereceram quaisquer dúvidas e decidi avançar nesse sentido. Escolhi o Mondego pela grande diversidade de paisagens que atravessa no seu percurso, e pela relação especial que tenho com o rio. Também em termos de narrativa e fotografia, a história clássica de um rio desde a nascente até à foz permite incluir uma grande diversidade de paisagens e de espécies, tornando a história mais interessante. O documentário assentou por isso num conceito de viagem pelo rio, que pode ser dividida em quatro grandes áreas/ecossistemas: alta montanha (Serra da Estrela), o planalto (aproximadamente de Celorico da Beira até Coimbra), os campos do Baixo Mondego (de Coimbra à Figueira da Foz) e finalmente o estuário e O documentário assentou por isso num conceito de viagem pelo rio (Mondego)

Casos práticos

Em 2011 realizei o documentário de vida 36 Nascente do Mondego o encontro com o Atlântico. Tentei incluir espécies tipo de cada habitat que fossem representativas das dinâmicas dos mesmos. Com esta estratégia foi também possível fazer referência a algumas actividades sócio- económicas ligadas ao rio. Numa primeira fase, o documentário teve bastante aceitação por parte do público na Internet e redes sociais, passando posteriormente pela transmissão televisiva na SIC e a participação em festivais de cinema nacionais, tendo alcançado vários prémios. Sendo um projecto académico, o “Mondego” não teve retorno económico directo. O retorno que tive ao realizar este documentário foi uma visibilidade nacional e o reconhecimento do público e várias entidades que me abriram as portas a outros projectos em que participo actualmente em Portugal e no Brasil. Factos relevantes alcançados com o “Mondego”: Cerca de 200 000 vistas no Vimeo e Youtube Emissão na SIC com 31% de share (cerca de 800 000 espectadores) Emissão na SIC Internacional USA Prémio Seeds of Science Especial 2012 na Gala da Ciência 1o prémio na categoria Nature and Wildlife no Arrábida Film Festival 1o prémio na competição Lusófonia- Panorama Regional no Cine’Eco 3o prémio na categoria Documentário no Festival de Curtas Metragens de Faro Finalista no Madeira Film Festival Exibido no Pavilhão de Portugal da Cimeira RIO+20, United Nations Conference of Sustainable Development, Rio de Janeiro 2012, representando a biodiversidade portuguesa. Notíciado nos media: SIC, SIC NOTÍCIAS, RTP1, ESECTV, Antena 1, Expresso, JN, Diário as Beiras, Ciência Hoje etc… Exibições do documentário em várias conferências e eventos em Portugal e na Anglo Portuguese Society em Londres. Entidades envolvidas: ICNF, QUERCUS, LPN, FNAC, Universidade de Coimbra, Universidade de Lisboa, Instituto Politécnico de Coimbra, Embaixada Portuguesa no Reino Unido, CISE, SETA e dezenas de Escolas Secundárias.

Em 2012 realizei o documentário “Entre o céu e as marés” sobre as aves do estuário do Sado. Uma encomenda do ICNF Reserva Natural do Estuário do Sado e da Tróia- Natura. Um dos principais objectivos destas entidades ao produzir um documentário de natureza, foi a divulgação da avifauna do estuário. Deste modo, procurou-se promover o turismo ambiental, em particular o Birdwatching, aproveitando esta vertente riquíssima que o estuário oferece.

Estuário do SadoEstuário do Sado

O projecto assentou numa ideia chave: “Aqui podem ser observadas mais de metade das espécies de aves existentes em Portugal Continental”. Um case study mundial de ecoturismo 38 e o impacto da Televisão no seu desenvolvimento, é o Tambopata Research Center, no Peru, onde tive oportunidade de participar num documentário em 2011. Integrado na Reserva Nacional Tambopata- Candamo e cobrindo uma área de 15 000 Km2 na amazónia Peruana, é um santuário mundial de psitacídeos (papagaios), particularmente a arara escarlate, Ara macao. O projecto é constituído por duas vertentes: a científica, representada pelo Macaw Project – Projecto de investigação e conservação liderado por Donald Brightsmith da Universidade do Texas, e a vertente turística representada pela Rainforest Expeditions – Operadora de ecoturismo. Gere 3 lodges na Reserva de Tambopata tirando daí grande parte dos dividendos económicos que conferem sustentabilidade ao projecto de conservação. Os media tiveram uma importância decisiva ao divulgar o projecto num contexto global, primeiro em 1994 com um artigo na National Geographic Magazine e depois com a cobertura em inúmeros documentários de vida selvagem em particular na série Life of Birds da BBC.

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