vale do Zêzere

Os lagos de ar frio do alto vale do Zêzere

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Nas montanhas, nas noites de céu limpo e vento fraco, em altitude o ar arrefece rapidamente, torna-se mais denso e escoa ao longo das vertentes, indo acumular-se nos fundos de vale. Além desse fluxo, acresce o arrefecimento local nessas áreas concavas. O ar frio local e o das áreas mais altas da montanha, originam assim acumulações de ar frio nos fundos de vale, conhecidas por lagos de ar frio.

Carla Mora
Centro de Estudos Geográficos
Universidade de Lisboa

A espessura das acumulações de ar frio depende do declive das vertentes e da diferença de altitude entre o topo e a base das mesmas. O afluxo de ar frio aos fundos de vale inicia- se normalmente 40 a 60 minutos antes do ocaso, com origem nas áreas à sombra, onde o arrefecimento começa mais cedo. O movimento do ar frio não é contínuo, mas antes, suave e irregular, ocorrendo oscilações na velocidade, devido ao atrito e ao aquecimento à medida que o ar vai descendo, o que causa a diminuição da sua velocidade. Assim, durante a noite, o movimento do ar frio faz-se por vagas, tendo-se registado em trabalhos nos alpes, nas montanhas norte-americanas e japonesas, uma primeira vaga antes da meia-noite, seguida de mais duas ou três até ao nascer do sol. A última vaga é normalmente responsável pela temperatura mínima no fundo de vale, que ocorre antes do nascer do sol. Associado a este caráter intermitente da drenagem do ar frio, regista-se a meia-vertente um sector de temperaturas noturnas mais elevadas, que pode constituir uma banda contínua à volta do vale, e que se designa cintura térmica. Acima desta, a temperatura diminui com o aumento da altitude, enquanto o sector inferior corresponde ao topo do lago de ar frio (Figura 1).

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Figura 1- Formação dos lagos de ar frio.

A ocorrência e formação de lagos de ar frio foi estudada com pormenor em 2001 no vale do Zêzere. Usaram-se 5 postos termométricos que registaram a temperatura do ar em intervalos 5 minutos durante 5 dias de estabilidade atmosférica, entre 11 e 15 de Abril (Figura 2). Com a instalação dos sensores, estudámos a influencia da morfologia do vale do Zêzere, com o seu entalhe profundo e perfil transversal em U, as suas vertentes com desníveis da ordem dos 600 m, e o seu alinhamento de direção NNE-SSW, na formação e destruição dos lagos de ar frio.

Gráfico

Figura 2 – Postos termométricos instalados no Alto Vale do Zêzere, com perfis topográficos transversais: A – Torre (1993 m), B – Lagoa Seca (1390 m), C – Zêzere estrada florestal (1270 m), D – Zêzere meia vertente (1150 m) e E – Vale do Zêzere (ASE, 1150m).

 

Nos 5 dias estudados a temperatura mínima foi sempre atingida de madrugada, antes do nascer do Sol, entre as 7 e as 8h, verificando-se que, durante cerca de uma hora a temperatura mínima foi mais baixa no fundo de vale a 1150 m de altitude, do que no Alto da Torre a 1993 m de altitude (Figura 3). Como exemplo, às 7h20min do dia 12 de Abril de 2001, a temperatura no Alto da Torre era de 2,3 oC e no posto do Zêzere – Estrada florestal, a 1270m de altitude, subia para 3,1 oC (figura 4). Pelo contrário, o fundo de vale estava muito mais frio, com -0,1 oC. Neste caso a presença da cintura térmica é clara, com a amplitude térmica entre o fundo de vale e o topo da inversão a ser de 3oC. No mesmo dia, 2 h após o nascer do Sol, o gradiente térmico vertical voltou a ser negativo e, foi aumentando progressivamente, até se atingirem as temperaturas máximas de 19,1oC no fundo de vale cerca das 16h (Figura 5). Depois dessa hora, e até ao ocaso, o gradiente diminuiu gradualmente.

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Figura 3 -Variação da temperatura do ar em altitude no vale do Zêzere entre os dias 11 e 15 de Abril de 2001.

 

Ao longo do dia a orientação do vale influenciou fortemente a distribuição das temperaturas, sendo responsável por claras dissimetrias térmicas entre as vertentes ao inicio da manhã e ao fim da tarde, influenciadas pelo efeito de sombra. A partir do momento em que a radiação direta incide, de manhã, na vertente exposta a nascente, a temperatura aumenta rapidamente nessa vertente. Assim, nos primeiros momentos após o nascer do Sol, quando o fundo de vale está à sombra, e ainda existe o lago de ar frio, o aquecimento da vertente exposta a Este, não é acompanhado pelo da exposta Oeste. Já no ocaso o comportamento entre as duas vertentes inverte-se (Figura 5 e 6).

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Figura 4- Temperatura do ar no vale do Zêzere às 7h20min do dia 12 Abril de 2001. As temperaturas registadas nos postos termométricos encontram-se a negrito. Postos termométricos: A – Torre, B – Lagoa Seca, C – Zêzere estrada florestal, D – Zêzere meia vertente e E – Vale do Zêzere (ASE)

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Figura 5– Temperatura do ar no vale do Zêzere às 10h10min do dia 12 Abril de 2001. As temperaturas regis-
tadas nos postos termométricos encontram-se a negrito. Postos termométricos: A- Torre, B- Lagoa Seca, C-
Zêzere estrada florestal, D – Zêzere meia vertente e E – Vale do Zêzere-ASE.

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Figura 6– Temperatura do ar no vale do Zêzere às 16h do dia 12 Abril de 2001. As temperaturas registadas
nos postos termométricos encontram-se a negrito. Postos termométricos: A – Torre, B – Lagoa Seca, C – Zêzere estrada florestal, D – Zêzere meia-vertente e E – Vale do Zêzere-ASE.

 

Em conclusão, nos dias e noites com estabilidade atmosférica, que se caracterizam por serem dias de céu limpo e vento fraco, a topografia vai determinar de forma clara as temperaturas que se fazem sentir nas áreas de montanha. Nas madrugadas, os fundos de vale podem registar temperaturas mais baixas do que os topos, como aconteceu nos exemplos apresentados. Frequentemente, as diferenças de temperatura podem ser superiores a 5 oC em 1000 m de desnível. Um exemplo marcante são os registos do Inverno de 2000, com uma temperatura mínima de -17 oC no fundo do Covão Cimeiro (1620 m), enquanto no topo adjacente (Cântaro Gordo, a 1875 m), se registaram -9 oC. No Covão Cimeiro, além da topografia, a exposição e a permanência à sombra por longos períodos no Inverno (devido à baixa altura do sol), são responsáveis por extremos térmicos inferiores aos do Alto da Torre. Esta breve nota realça os efeitos particulares da topografia nas temperaturas extremas, as quais não são normalmente registadas pela rede meteorológica nacional, dedicada ao 24 clima e meteorologia à escala regional. As diferenças à escala local, determinadas pela topografia só podem ser registadas por redes de monitorização de maior densidade espacial, como aquela que instalámos no vale do Zêzere e que permitiu ilustrar a complexidade espacial dos mosaicos dos climas locais da serra da Estrela.

Covão da Ametade

Cabeceira do vale do Zêzere e Covão da Ametade. O Covão Cimeiro encontra-se em último plano

 

Este artigo apresenta alguns resultados da dissertação de doutoramento: “Os climas da Serra da Estrela. Características regionais e particularidades locais dos planaltos e do alto vale do Zêzere”, que pode ser acedida livremente em https://dl.dropboxusercontent. com /u /4653594/Climas_da _ Serra _da _ Estrela.pdf.

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